Total de visualizações de página

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Família QUEIROZ


Família QUEIROZ,
sua origem,
história e descendência
no Ceará

“Com a migração das grandes famílias rurais para as cidades, surgem em terras distantes e com nomes diversos, novas gerações, que não mais encontram, na agitação da vida moderna, nem oportunidade nem tempo de ouvir dos avós as singelas histórias de seus remotos antepassados, como eram antigamente contadas nos costumeiros serões domésticos nas fazendas; e vão assim perdendo o gosto e o interesse pelas questões de linhagens, alheando-se dos parentes, que pouco a pouco se tornam meros desconhecidos.
Em verdade, essas gerações novas não sentem mais o entranhado amor que prendia à terra as antigas famílias sertanejas, enraizadas na propriedade agrícola, que lhes garantia a estabilidade, o conforto e a independência, de que tanto se orgulhavam. Separando-se da terra, desligam-se insensivelmente dos laços de parentesco e de amizade, que prendem entre si os descendentes dos mesmos troncos ancestrais, irmanados pelo mesmo sangue e pelo culto das mesmas tradições...”
Palavras do Dr. Esperidião de Queiroz Lima,
escritas no Proêmio de seu livro
Antiga Família do Sertão - Rio de Janeiro - 1946

“Já viera dos tempos bíblicos a preocupação pelas progênies, como fez Moisés enumerando as gerações dos antigos patriarcas, e fizeram São Lucas e São Mateus registrando a ascendência de Jesus Cristo. Foi pela genealogia que os hebreus puderam ligar a origem de Cristo à de David e a deste a Abraão. A genealogia do povo escolhido desempenhava uma função de máxima relevância: cada família pretendia ver sair de sua linhagem o Messias profetizado e esta é a razão porque fora talvez aquele o primeiro povo que cuidou da conservação das suas tradições de família.”
(Cônego Florentino Barbosa – Antônio Florentino Barbosa Leite Ferreira)


As primeiras famílias que habitaram as margens do Rio Jaguaribe, no Ceará, eram de origem portuguesa.
Chegaram ao Brasil no início do século XVIII, através do porto de Recife ou de Salvador, e seguiram antigas "trilhas indígenas", ou "caminhos de gado", que cortavam o SERTÃO nordestino.


A história das famílias portuguesas:
QUEIROZ,
BARREIRA,
MATTOS BRITO,
CASTELO BRANCO,
LOPES FREIRE,
bem como suas trajetórias e descendências em território nordestino, se confunde largamente com a
História do Ceará.


Não sou historiadora nem tenho formação acadêmica específica.

Foi como pesquisadora das nossas origens, da história da nossa família e de sua contribuição para a formação desse país que procurei situar esse panorama da época da conquista das terras do "Siará Grande", nesse insólito SERTÃO cearense desbravado por nossos antepassados.


E a história diz que...
A conquista do "SERTÃO" se deu assim:

– Em 1534 chegavam à CAPITANIA de SÃO VICENTE as primeiras cabeças de GADO, procedentes das ILHAS DE CABO VERDE.
Em 1550, TOMÉ DE SOUSA mandou trazer um novo carregamento de GADO, desta vez para a CAPITANIA de SALVADOR. Da capital da Colônia o GADO foi sendo levado para PERNAMBUCO e daí para o NORDESTE, especialmente MARANHÃO e PIAUÍ.
As CAPITANIAS de PERNAMBUCO (de Duarte Coelho) e de SÃO VICENTE (de Martim Affonso de Sousa) foram as que mais se desenvolveram.
A base da ECONOMIA COLONIAL girava em torno dos ENGENHOS AÇUCAREIROS que abasteciam de AÇÚCAR o MERCADO EUROPEU. As PLANTAÇÕES de CANA DE AÇUCAR ocupavam grandes extensões de TERRAS LITORÂNEAS. Por esse motivo a PECUÁRIA se desenvolvia nas regiões mais distantes das áreas de PLANTAÇÃO.
A partir de 1680 o CEARÁ desligou-se do MARANHÃO tornando-se CAPITANIA subalterna à PERNAMBUCO. O DESENVOLVIMENTO ADMINISTRATIVO e INDEPENDENTE da CAPITANIA do CEARÁ só aconteceu no final do SÉCULO XVIII, em 1799, com sua DESAGREGAÇÃO definitiva de PERNAMBUCO.
A necessidade de POVOAR os SERTÕES fez com que os PRIMEIROS DONATÁRIOS de capitanias, chamados de “CAPITÃES-MORES”, passassem a empreender uma política de DOAÇÃO de SESMARIAS ao longo das RIBEIRAS de RIOS como o JAGUARIBE e seus afluentes, BANABUIÚ, SALGADO, RIACHO do SANGUE, QUIXERAMOBIM, SITIÁ, entre outros, a fim de situarem ali essas FAZENDAS DE GADO. As SESMARIAS eram glebas de TERRAS INEXPLORADAS, ou ABANDONADAS pelos seus primeiros donatários, DOADAS a PARTICULARES que se comprometiam a CULTIVÁ-LAS e POVOÁ-LAS. Somente em 1812 as SESMARIAS foram oficialmente EXTINTAS...

Capistrano de Abreu, em "Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil", aborda a doação de sesmarias como fator primordial para "civilizar" e "pacificar" os índios bravios do sertão.
Ressalta a importância dessa "conquista do sertão" a partir da criação de GADO em terras que não pareciam boas para a lavoura mas se constituíam de excelentes pastos.
As condições naturais da região sertaneja tiveram um papel importante na ocupação desse território. E foi assim que desde o século XVII, o sertão tornou-se um grande pasto natural: embora a água fosse escassa, a terra era vasta e plana. A produção de carne passou a ser consumida em toda a Colônia, chegando aos centros mais distantes por meio das tropas de abastecimento. A vastidão do território e a utilização de pouca mão-de-obra para tocar essa produção, propiciaram uma cultura regional bastante diferente da litorânea, que entrou para a história conhecida como "cultura sertaneja" ou "CIVILIZAÇÃO DO COURO".

“As aldeias assistidas e protegidas por dedicados missionários puderam manter reunidos em convívio fecundo numerosíssimos índios e pô-los em contato pacífico com os colonos, seus moradores e agregados, e destarte contribuíram grandemente para a miscigenação dos elementos étnicos que se defrontavam nos sertões.”
Tomás Pompeu Sobrinho

Depois de aldeados boa parte dos índios sobreveio a consolidação da PECUÁRIA como atividade predominante em um território seco e com chuvas irregulares.
E assim, a partir do final do século XVII e durante todo o século XVIII, a conquista do sertão nordestino baseou-se numa prerrogativa:
A criação do GADO

Abriram-se os caminhos pelo SERTÃO seguindo a marcha do gado através das ribeiras dos rios, formando os principais caminhos de boiadas que povoaram as primeiras fazendas. A maior dessas rotas tinha início na foz do rio Jaguaribe e penetrava o sertão pela sua ribeira até o Cariri, onde se integrava a outros caminhos coloniais. Ao longo dessas trilhas foram surgindo os povoados que deram origem às primeiras vilas.

“Quase todos os municípios nordestinos nasceram nos pátios das fazendas de criar.”
Luiz Câmara Cascudo

De início, os donos dessas terras moravam longe, alguns viviam em seus engenhos no litoral e mantinham pouco contato com as fazendas, onde havia somente a terra, uma casa de taipa para o vaqueiro e o curral para guardar as cabeças de gado.
O vaqueiro cuidava de tudo e lhe prestava contas recebendo uma parte das crias como pagamento.

“Transportemo-nos a essas fazendas do sertão e procuremos sentir o vaqueiro no seu ambiente, ontem como hoje, ao capricho de uma vida eleita por sua coragem e por sua aventura reveladoras de um grande anseio de domínio e liberdade.”
Eugênio de Castro


Foi assim com o português ANTÔNIO DUARTE DE QUEIROZ, considerado o patriarca da família QUEIROZ no Ceará, que desembarcou no Porto de Recife em 1685, com 20 anos de idade e herdou o Engenho Jacaré, na capitania de Pernambuco, depois que se casou com sua prima Izabel. Conheceu Antônio Dias, um negociante que lhe falou do sertão do Jaguaribe e do Banabuiú, onde sobravam pastos e eram desconhecidas as doenças de gado. Animado com as notícias do comerciante de quem se tornou amigo, deu-lhe dinheiro bastante para comprar terras e rebanhos nas ribeiras do Jaguaribe e do Banabuiú. Antônio Dias comprou gado, cavalos, e outras criações, construiu casas e currais para iniciar as fazendas e povoá-las com os novos rebanhos. Sempre visitava o Engenho Jacaré para dar notícias da prosperidade dessas terras e convidar seus donos a visitá-las.

“Sem os rios condutores dos homens, sem a caatinga aberta e propiciadora de forragem e sem o índio, o problema da adaptação européia ainda estaria certamente reclamando uma solução no Nordeste.”
Tomás Pompeu Sobrinho

A intensificação da criação de gado naquelas ribeiras transformou as estreitas veredas que cortavam o sertão nordestino no que ficou conhecido como os "caminhos do gado", ou a "estrada nova das boiadas", entre outras, configurando as trilhas por onde homens e animais transitavam, em idas e vindas, padecendo todos os efeitos climáticos de secas e de enchentes.

Os currais se transformavam gradativamente em fazendas. O BOI virou moeda da época, garantindo a alimentação e estabelecendo extenso comércio entre Pernambuco e Bahia, e em troca, vinham tecidos, louças, ferramentas e outras utilidades indispensáveis para tocar a vida nas fazendas, onde não havia luxos. A mesa era farta e a alimentação se baseava exclusivamente na carne, no leite e em seus derivados. Não se comia frutas nem legumes.
A respeito dessa alimentação básica do nordestino, disse Raimundo Girão:
"O Ceará ainda é o sertão melhorado, mais civilizado, porém sertão".

A intensificação da pecuária aliada ao pequeno consumo interno de carne bovina provocou as longas marchas do gado. Os bois passaram a ser levados em boiadas compostas de cem cabeças de reses ou mais, até as feiras nos grandes centros de Recife, Feira de Santana e Salvador.

Para Capistrano de Abreu, a marcha dessas boiadas, mesmo com a consequente perda do valor do gado por conta das dificuldades e das condições climáticas enfrentadas em todo o seu trajeto, teve seu lado positivo. Os caminhos abertos no trajeto do gado em direção aos centros consumidores determinaram também a possibilidade de se entrar no sertão, de povoá-lo e de conquistá-lo.

Mas as longas marchas acabavam desgastando o gado e desvalorizando o seu preço. Os altos prejuízos financeiros dos criadores eram ainda maiores diante da concorrência desigual com os fazendeiros sediados nas proximidades dos grandes centros de comercialização. Então, a partir da primeira metade do século XVIII, os fazendeiros das áreas litorâneas passaram a comercializar o gado já abatido, iniciando aí o processo de transformação da carne fresca em CARNE SECA e salgada, conhecida também como CARNE de CHARQUE.
A origem da técnica de corte e de salga dessas carnes é motivo de controvérsias entre vários autores.

AS CHARQUEADAS
Para o desenvolvimento desse processo do charque contribuiu, sobretudo o grande rebanho da capitania aliado a outros fatores como a existência do sal, dos ventos constantes, da baixa umidade relativa do ar, e ainda, a utilização de poucos recursos para instalação das oficinas de charque.
divergências sobre a verdadeira origem da CARNE SECA feita no nordeste. Alguns dizem que esse costume vem desde a antiguidade, outros dizem que foram os índios, mas há uma versão que acredita que, sendo os portugueses os primeiros donos dessas sesmarias, e já acostumados a salgar o tradicional bacalhau, teria então sido deles a ideia de usar o sal que havia em abundancia no nosso litoral para salgar a carne produzida em excesso e assim facilitar seu comercio e exportação para as capitais das províncias.


No litoral cearense surgiram então vários TRAPICHES (armazéns), entre eles o Trapiche do Ellery, na Prainha, construído pelo inglês HENRY ELLERY, provavelmente no ano de 1844, e foi o mais famoso deles.
Henry ELLERY
Patriarca da família ELLERY no Ceará, o inglês Henry Ellery (bisavô de meu pai) nascido em Liverpool e falecido em Fortaleza em 1953, era filho do médico John Ellery e Sarah Ellery, veio para Recife ainda muito jovem, em 23/05/1835, aportando em Fortaleza em 08/02/1843.
Tão logo chegou aqui dedicou-se ao comércio e exportação de diversos produtos, inclusive à indústria de carnes secas, tendo para isso montado uma oficina (charqueada), na Rua da Palma (hoje, Major Facundo, nº 50), atualmente nº 260 a 272, localizada numa esquina, chamado "BECO DO ELLERY".
Por esse tempo o mar chegava até as proximidades da Rua da Alfândega (hoje Rua José Avelino, então nº 15). Aí ele construiu um embarcadouro que existiu por muitos anos e ficou conhecido como TRAPICHE DO ELLERY. No mesmo prédio, sobre a parte que compreendia a esquina sul-poente, instalou sua residência.


A CIVILIZAÇÃO DO COURO


As condições naturais da região sertaneja tiveram um papel importante na ocupação do território. Assim, a partir do século XVII o sertão tornou-se um grande pasto natural: embora a água fosse escassa, a terra era vasta e plana. A produção de carne e de couro abastecia toda a Colônia, chegando aos centros mais distantes por meio das tropas de abastecimento. A vastidão do território e a utilização de pouca mão-de-obra para tocar a pecuária, criaram uma cultura regional bastante diferente da litorânea.



Sobre esse ciclo da história nordestina, conhecido como "Ciclo do COURO", ou "Civilização do COURO", Capistrano de Abreu, em "Capítulos da História Colonial" (1500-1800), descreve com maestria uma sociedade sertaneja baseada na criação de gado, numa coexistência integrada, onde o COURO de boi era usado desde a estrutura da casa, nas amarrações da madeira, e ainda para fazer portas, camas, vestimentas, utensílios, alem de ser a carne bovina a principal fonte de alimento desses bravos sertanejosAssim, tudo girava em torno do BOI: carne, leite, derivados, e, sobretudo, couro e chifres.

"De couro era a porta das cabanas, o rude leito aplicado ao chão duro, e, mais tarde, a cama para os partos; de couro todas as cordas, a borracha para carregar água, o mocó ou alforje para levar comida, a mala para guardar a roupa, a mochila para milhar cavalo, a peia para prendê-lo em viagens, as bainhas de facas, as broacas aos mourões, a roupa de entrar no mato, os banguês para curtumes ou para apurar sal; para os açudes o material de aterro era levado em couros puxados por juntas de bois que calcavam a terra com seu peso; em couro pisava-se tabaco para o nariz."

Rachel de Queiroz, em seu livro o "O Não Me Deixes", menciona o uso de "relhos", tiras de couro cru retorcido, usados na amarração da madeira em antigas construções de casas de taipa:

“A casa velha do JUNCO, assim como as demais fazendas ao redor, era construída de taipa, não por pobreza, mas até por luxo. Só quem possuía boas matas podia gastar madeira de lei, em vez de tijolos, numa construção. Mais de uma vez, papai incentivado por mamãe, na sua mania de reforma de casas, encontrava uma parede de taipa velha, armada em aroeiras. Era um desperdício esconder na taipa madeira nobre, mas nos tempos em que foi feita a casa, nos começos do século XIX, a madeira era tão abundante que se podia desperdiçá-la. É a frase mais comum do caboclo: “Nunca tive amor a pé de pau.”
Outra coisa comum e singular na velha casa do Junco é que as varas, que formavam o trançado da taipa, eram atadas às forquilhas com tiras de couro cru. Quando se derrubava algum pedaço de parede, descobria-se o relho perfeitamente conservado dentro do barro.
E hoje, apesar de algumas modificações nas paredes internas, a estrutura externa mantem-se a mesma, tal como a construiu o velho Miguel – esqueleto de aroeira, recheio de barro traçado sem cimento, apenas com um pouco de cal.”


Casa Velha do JUNCO - Quixadá - Ceará
A casa velha do JUNCO, construída por Miguel Francisco de Queiroz Lima,
tem mais de duzentos anos, toda feita de taipa, com o madeirame de aroeira
e o envaramento amarrado com tiras de couro cru.
As colunas do alpendre são de troncos de Aroeira.

José Bonifácio de Sousa faz interessante referência, em seu livro intitulado "Quixadá & Serra do Estêvão", à cidade de Quixadá e à família QUEIROZ:

"Quixadá nasceu de uma aventura. Uma casa de taipa e um curral de caiçara à beira de um rio seco, centrando duas léguas de caatinga compradas "pelo preço e quantia certa de duzentos e cincoenta mil reis". Foi quanto custou ao capitão José de Barros Ferreira, em 1747, todo o chão quixadaense.
A essas benfeitorias primitivas veio juntar-se depois uma capela, erguida pela crença e pelas esperanças daquele pioneiro, exposto a toda sorte de perigos, naqueles ermos pervagados pelo tapuio traiçoeiro.
Estava assim formado o triangulo rural peculiar da região: casa, curral e capela, como expressões da família, da economia e da religião.
A crônica dessa terra é, a bem dizer, o resumo da história de todo o vasto sertão em que se acha encravada. Não há, talvez, um outro município no Ceará que melhor caracterize a formação da sociedade rural, desde a fase inicial da ocupação até o atual estágio de desenvolvimento.
Foram os "Lemos" e os "Queirozes" as famílias que predominaram na formação da gens quixadaense.
Vindas por caminhos diferentes, fixaram-se quase ao mesmo tempo, na segunda metade da era de setecentos, às margens do Sitiá eixo de colonização da zona – entregando-se à exploração da terra pelo pastoreio e depois também pela lavoura.
Não obstante a identidade e interesses, não chegaram a se entrelaçar, tendo cada uma dessas famílias construído o seu destino à parte, de acordo com as tendências de índole e de formação. Todavia, não se constituíram em grupos antagônicos e hostis, como os que encheram de tumulto a história social de outras regiões."


“Os fatores sucintamente descritos documentam o modus faciendi do nascimento de uma cidade sertaneja do ciclo do gado. A fazenda que se situa, os vizinhos que se reúnem, a riqueza que aumenta, a capela que surge, a igreja que substitui e, enfim, a matriz em torno da qual a vila formada ali se transforma em cidade. Preside a todas essas fases o espírito cristão. É a sombra da cruz que, povoa e civiliza o deserto.”
Gustavo Barroso


OS QUEIROZES:

"Das margens do Jaguaribe e do Banabuiú, onde a princípio se estabeleceram, vindos de Pernambuco, passaram ao baixo e médio Sitiá e aí se afazendaram. Foram os sesmeiros iniciais das terras adjacentes à serra Azul e seus domínios abraçaram, pouco a pouco, as ribeiras do Pirangi e Choró.
Em toda essa região situaram fazendas, povoaram-nas de gente e de gado e, mais tarde, na época do fastígio econômico do grupo, suas propriedades se estendiam pelos tabuleiros de Cascavel e Beberibe e pelas frescas rechãs da Serra de Baturité, onde um deles iniciou o cultivo do CAFÉ.
De índole irrequieta e dominadora, não era gente para viver segregada nos seus feudos rurais, indiferentes ao meio e sem ingerência na vida coletiva. Deram exemplo disso os dois Antônio Pereira de Queiroz, pai e filho, que repartiam o tempo e a fadiga entre as lides bravas do pastoreio e os encargos públicos que exerceram na região.  O mais moço, morador na fazenda Natividade, ao sopé da serra Azul, não se cansava de percorrer, em cada quinzena, trinta e seis léguas a cavalo, em plena seca de 1790, para cumprir os deveres não remunerados de juiz ordinário da Vila de Campo Maior de Quixeramobim.
Fiéis a esse traço característico, tiveram os QUEIROZES participação ativa nos movimentos literários que agitaram a Província nos Primórdios da Independência. Na expedição organizada contra Fidié, no Maranhão, lá estavam Antônio Francisco de Queiroz Barreira, Miguel de Queiroz Lima e outros. E na Revolução de 1824, foi talvez o grupo que maior confiança inspirou ao malogrado presidente Tristão Gonçalves, e soube honrá-la a preço de ingentes sacrifícios.
Havia, como em todo rebanho numeroso, ovelhas negras, e entre estas se incluía Antônio Cirilo de Queiroz, cujas façanhas lhe deram triste celebridade. Inculto porem inteligente, deixou curioso manuscrito, com que se fez o primeiro cronista da família, tendo aludido nele aos seus desvairamentos, penitenciados no fim da existência atribulada e na hora da morte.
O juiz leigo Antônio Duarte de Queiroz celebrizou-se pelo “assassínio judiciário” de Estácio José da Gama. Foi, entretanto, o primeiro fazendeiro quixadaense a libertar seus escravos, muito antes da emancipação total na Província, gesto altruístico imitado por seu irmão Miguel Francisco de Queiroz e outros membros da grei.
Sem tendências para o misticismo religioso, nem por isso deixou a família de produzir um santo sacerdote, na pessoa de monsenhor José Cândido Queiroz, austero e modesto vigário sertanejo a cujas virtudes e sabedorias costumava aconselhar-se o arcebispo Dom Manuel Silva Gomes.
Queiroz da gema foi também o general José Clarindo, primeiro presidente constitucional do Ceará-republicano, em cujo período administrativo tantos eram os que declaravam seus parentes, que uma burleta da época generalizou – “todos nós somos Queiroz...”.
Dos seus entrelaçamentos com os BARREIRAS, os Limas, os Ferreiras, os MARINHOS, os Holandas e outras famílias da região, resultaram subgrupos que conservam as características da velha cepa, aprimoradas nos Facós, gente obstinada no talento, no caráter e nas opiniões.
No magistério e no cultivo do Direito brilharam, a seu tempo, Arcelino de Queiroz Lima, José Baltazar Ferreira Facó, Pedro de Queiroz e Eusébio de Queiroz Lima, para citar apenas os mortos.
No domínio da poesia e da erudição, Edgar e Eurico Facó tiveram renome nacional. Na vida política do Ceará projetou-se o citado general José Clarindo de Queiroz, militar de notável prestígio, e no âmbito municipal, o Dr. João Batista de Queiroz; José Jucá, um dos maiores servidores de Quixadá, e os irmãos Francisco e IGNÁCIO ALVES BARREIRA NANAN.
Deixaram estas e outras figuras representativas ilustres descendência entre filhos e netos, os quais hoje ocupam lugar de destaque nas letras, nas cátedras, no jornalismo, nas profissões liberais e nos cargos públicos.
Há, todavia, os mais modestos e mais numerosos, que permaneceram fiéis à exploração da terra, continuando a tradição duas vezes secular."
(José Bonifácio de Sousa – Quixadá & Serra do Estêvão)

*  *  *  *  *  *  *

‘Cada homem carrega a história
de todos que o precederam.
E faz, por sua vez, em certa medida,
a história de todos que o seguirão.
Nenhum de nós começa do princípio...
Nascemos no meio da nossa própria história!’
Padre Daniel Lima

*  *  *  *  *  *  *


O português
MANOEL PEREIRA DE QUEIROZ
foi o primeiro QUEIROZ a pisar em terras brasileiras:


– Em 1630, chega ao porto de Recife, o português Manoel Pereira de Queiroz, nascido em Viana do Castelo em 1610. Com os recursos que havia trazido, estabeleceu-se no comércio de tecidos e ferragens vendidas aos donos de engenho em troca de açúcar. Passados dez anos de dura peleja sob o domínio holandês, Manoel Pereira de Queiroz juntou suas economias e resolveu dedicar-se à agricultura. Conseguiu uma sesmaria de terra, de uma légua de frente por cinco léguas de fundos, situada à margem esquerda do rio Goiana Grande, distante uma légua da feira de Goiana na Capitania de Pernambuco, onde construiu com muito trabalho e esforço o Engenho Jacaré. Somente depois de bem estabelecido, aos 59 de idade, sentindo-se velho e sozinho, resolveu casar em 1669, com dona Ângela Cavalcante Vasconcelos, filha do português Felippe de Brito Pereira da Rocha e Joaquina Cavalcante de Vasconcelos. Dois anos depois, em 1671, nasceu sua única filha Izabel Cavalcante de Queiroz.

Numa bela tarde de junho de 1685, chega ao Engenho Jacaré, Antônio Duarte de Queiroz, rapaz jovem de 20 anos, português de pele clara e rosada, bem vestido, a procura do seu tio Manoel Pereira de Queiroz. Era filho do seu irmão mais novo chamado Manoel de Queiroz e Silva, que vivia em Vila do Amarante, casado dona Jerônyma Pinto Nogueira.
Antônio veio à procura do tio que embarcara para o Brasil e já havia muitos anos não tinham notícias suas. Depois do encontro emocionado dos dois sentimentais patrícios, conheceu a prima Izabel, encantadora nos seus quatorze anos de idade, cheia de dengues de filha única e vaidosa de ser herdeira rica e bajulada. Apaixonou-se por ela e decidiu que iria trabalhar com afinco para conseguir conquistar a confiança do tio e o coração de Izabel. Tanto fez que, dois anos após a sua chegada, em 1687, em meio a grande festejo e satisfação dos sogros, foi realizado o casamento comemorado até nas senzalas. Ele com vinte e dois anos e ela com a beleza graciosa dos seus dezesseis anos de idade.
Três anos depois do casamento, morreu subitamente o tio Manoel, aos oitenta anos de idade, e no ano seguinte faleceu dona Ângela, deixando para Antonio Duarte de Queiroz e dona Izabel Cavalcante Vasconcelos de Queiroz, muito jovens ainda, uma boa e sólida fortuna.
O casal teve três filhos:
Francisca (nascida em 1692), Bertholeza (nascida em 1694) e Antônio (nascido em 1698), crianças louras, bem alvas e cheias de saúde, que enchiam de alegria a casa do Engenho Jacaré.

Num certo dia, Antônio Duarte de Queiroz conheceu um negociante que lhe falou do sertão do Jaguaribe e Banabuiú com muito entusiasmo, onde sobravam pastos e eram desconhecidas as doenças de gado.
O Ceará vivia o seu apogeu do "Ciclo do Couro", exportando a famosa carne de sol para vários estados, desde o norte do país até o Rio Grande do Sul, daí passou a ser conhecida como “carne do sul”.
Animado com as notícias do comerciante Antonio Dias de quem se tornara amigo, o jovem proprietário do engenho Jacaré deu-lhe dinheiro bastante para comprar terras e rebanhos de criação no sertão do Ceará. Antonio Dias comprou uma légua de terra à margem direita do Jaguaribe no lugar denominado Boa Vista, e outra meia légua de terras à margem direita do rio Banabuiú, com uma légua de fundos, no lugar chamado Barro Vermelho, e formou assim duas boas propriedades, distantes três léguas uma da outra. Comprou gado, cavalos, e outras criações, construiu casas e currais para iniciar as fazendas e povoá-las com os novos rebanhos. Sempre visitava o Engenho Jacaré para dar notícias da prosperidade das fazendas e convidar seus donos a visitá-las.

No início do ano de 1700, Antonio Duarte de Queiroz resolveu conhecer suas terras e partiu do Engenho Jacaré para o sertão de Jaguaribe, em companhia do amigo Antônio Dias e da família:
Francisca com oito anos de iadade, Bertholeza com seis e Antônio com quatro anos.
Dona Izabel foi conduzida em uma liteira carregada por escravos. Prosseguiram uma longa e penosa viagem pela Paraíba, Rio Grande do Norte, Piranhas e Mossoró, atravessando a serra da Borborema e a chapada do Apodi. Chegaram ao Jaguaribe e se acomodaram na fazenda Boa Vista.
Mal refeitos da aventurosa viagem e já se acostumando com as lidas sertanejas, diante da prosperidade dos rebanhos e da abundância própria do sertão nordestino nos tempos de bons invernos, foram surpreendidos pela morte repentina do amigo Antônio Dias vítima da temida febre amarela. Dona Izabel aflita, lamentou-se por terem se aventurado para terras tão distantes, sem  nenhum conforto, longe dos parentes e sem meios de comunicação. Contam que ela queixou-se maldizendo a hora que veio pra esse lugar, e com desolação teria dito:

- “Deus permita que eu não tenha filhos nessa terra, pois não vejo quem possa ser seus padrinhos caso me veja obrigada a batizá-los”.

Os vizinhos mais próximos eram da família Brito, pardos ignorantes e perversos. Tomaram como ofensa pessoal as palavras de dona Izabel, e por isso guardaram por ela um profundo rancor.
Só haviam se passado três meses do dia em que partiram do Engenho Jacaré, e aconteceu em seguida uma verdadeira tragédia: adoeceram e morreram, talvez da mesma febre, Antônio Duarte e dona Izabel, deixando órfãos em terra estranha, os três filhos pequenos, abandonados que ficaram sem nenhum amigo que pudesse protegê-los.
Essa tal família Brito que odiava dona Izabel, com o apoio da justiça tomou conta das crianças e tornaram-se seus tutores, vendendo em praça pública a fazenda Boa Vista, gados e escravos, e apossando-se ainda de todos os bens deixados pelo casal. Para as crianças deixaram apenas as terras da fazenda Barro Vermelho, algumas cabeças de gado, um escravo para o menino e uma escrava para cada menina. Mas o pior foi o suplício e as humilhações que sofreram essas pobres crianças, alem dos maus tratos físicos que padeceram durante dez anos.
Antônio Duarte de Queiroz e sua mulher dona Izabel foram sepultados ao pé de uma velha cruz de madeira que havia em sua fazenda Boa Vista onde residiram por tão pouco tempo.
Após o falecimento do casal a fazenda foi vendida ao português João Batista Pereira de Castro, que mandou construir uma capela sobre as sepulturas de seus patrícios com a invocação de São João Batista.
Em janeiro de 1710, o menino mais novo, Antônio Duarte de Queiroz Filho que já tinha quatorze anos, não suportando mais os castigos a que eram submetidos, resolveu fugir em procura dos parentes de sua mãe que ficaram em Pernambuco. Saiu às escondidas acompanhado do escravo, e seguiram a cavalo pelo mesmo caminho percorrido com sua família na viagemque fizeram, vindo do Engenho Jacaré. Antônio já atravessava a Serra da Borborema quando adoeceu e faleceu vítima também de febre amarela. A notícia deixou suas irmãs ainda mais infelizes e desamparadas.
Em abril deste mesmo ano de 1710, no porto de Recife chegaram três jovens rapazes portugueses, sobrinhos de Antônio Duarte de Queiroz, bem trajados, de pele clara e traços finos, e logo se dirigiram a um armazém de açúcar na rua principal do porto, endereço que lhes havia chegado na última carta recebida pela família em Portugal com notícias dos herdeiros do Engenho Jacaré. O proprietário do estabelecimento,  um negociante amigo de seu tio, contou-lhes o que sabia do triste acontecimento mas desconhecia o paradeiro das três crianças, e assim eles logo resolveram partir para o Jaguaribe em busca do paradeiro de seus primos.
Antonio Duarte de Queiroz quando veio para o Brasil em 1685, havia deixado em Portugal três irmãos mais novos.
Os três rapazes que aqui chegaram em abril de 1710, eram: Ignácio Pereira de Queiroz Lima, Joaquim Pinto de Queiroz e Victoriano Nogueira de Queiroz, filhos respectivamente desses três irmãos que se casaram e viviam em Viana do Castelo.
Os três rapazes, orientados pelo comerciante, tomaram um veleiro de carga que seguia para São José do Porto dos Barcos (Santa Cruz do Aracati, depois conhecida como Aracati), situada na foz do rio Jaguaribe, ao sul da capitania do Ceará. Fizeram uma longa viagem e finalmente chegaram a São Bernardo do Jaguaribe, já em princípios de maio. Procuraram a casa do vigário, Padre João da Costa que lhes relatou com detalhes toda a triste história dos seus parentes, falou das duas irmãs que restaram, Francisca e Bertholeza – “duas mocinhas brancas e bonitas”.
Entre os rapazes e o velho missionário, teria sido feito um acordo:

“– Aceitar-nos-iam elas como maridos?
 – Ora! Se aceitam! Para as pobrezinhas isso será um presente do céu! Assim ficará tudo muito bem e serão todos muito felizes, com a graça de Deus.
– Elas escolherão dentre nós os seus maridos, declarou Ignácio.
–  Não parece conveniente essa solução. Iria colocá-las no embaraço da escolha e causar-lhes o desgosto de ter de refugar um dos primos. Penso que deviam decidir antes, quais os que desejam casar, e irem vê-las só os dois pretendentes.
Todos os rapazes concordaram com esse alvitre.
– Proponho uma solução, disse o padre: o mais velho casará com Francisca e o segundo em idade casará com Bertholeza.
E assim concordaram e estabeleceram. No dia seguinte Ignácio Pereira de Queiroz Lima e Victoriano Nogueira de Queiroz seguiram para São João do Jaguaribe, levando uma carta do venerando padre João da Costa para o tutor de suas primas.”

Chegando à fazenda dos Brito, os rapazes se apresentaram com a carta de recomendação feita pelo padre e logo conheceram as duas primas. Moças bonitas, alvas, louras e de olhos azuis, tímidas e confusas, tomadas de emoção e sobressalto pela aquela visita inusitada. Depois de conversarem reservadamente por um bom tempo, falaram de suas intenções e as moças aceitaram com muito gosto as propostas. Eles então se dirigiram ao velho Brito e formalizaram os pedidos de casamento sendo logo marcado a data da cerimônia. Os noivos se despediram com a promessa de voltarem no dia marcado para o casamento.

Ignácio  e Victoriano casaram-se com Francisca e Bertholeza conforme haviam prometido, numa cerimônia simples mas tocante, na capelinha de São João Batista. O velho missionário padre João da Costa celebrou uma missa depois de abençoar os dois casais de noivos que se ajoelharam ante as sepulturas de seus pais: Antônio Duarte e Izabel, testemunhas silenciosas daquela hora tão divinamente abençoada em que suas queridas filhas foram redimidas do martírio em que viviam.
Após o casamento os dois casais foram morar em suas terras da fazenda Barro Vermelho, às margens do rio Banabuiú.
O outro primo Joaquim Pinto de Queiroz, seguiu para o Rio Grande do Norte, estabeleceu-se em Serrinha e tornou-se fazendeiro, casou-se com uma moça da família Fernandes, do Açu, donde veio a família QUEIROZ do Rio Grande do Norte.

Ignácio Pereira de Queiroz Lima e Francisca Cavalcante Vasconcelos de Queiroz viveram felizes na Fazenda Barro Vermelho, aonde chegaram a reunir boa fortuna em gado e escravos. Ignácio  era comodista, homem de letras, bem instruído encarregou-se da educação dos filhos o que fez com muito esmero, transmitindo-lhes com habilidade e esmero, conhecimentos raros para aquela época. Dona Francisca, inteligente e determinada, era verdadeiramente a alma da fazenda, agia sempre em nome do marido a quem atribuía todas as decisões. Mas tanto ela como sua irmã nunca esqueceram os maus tratos sofridos sob o jugo daquela família de perversos, e por isso demonstravam abertamente o desprezo que nutriam à “Justiça” e sempre conservaram consigo o ódio aos mulatos.

Ignácio e Francisca tiveram dez filhos:

F1 - Antônio Pereira de Queiroz, c.c. Helena de Oliveira Maciel
F2 - José Pereira Cavalcante de Queiroz, c.c. Francisca da Rocha Maciel
F3- Anna Pereira Cavalcante de Queiroz, c.c. Simão Corrêa de Araújo
F4- Fellipe Pereira Cavalcante de Queiroz mudou-se para a cidade de Açu, no Rio Grande do Norte, onde se casou na família Albuquerque, teve várias filhas mulheres e apenas dois filhos homens, um destes, José Felippe de Albuquerque, que se mudou para o Rio de Janeiro onde se formou em Direito e lá deixou descendência
F5- Joaquim Pereira de Queiroz, c.c. uma moça de Canindé e foi o progenitor da família Queiro da Água Verde.
F6-
F7-
F8-
F9- Luíza Pereira de Queiroz, que acompanhou seu irmão Joaquim, casou-se em Canindé com o português João de Andrade, de onde vieram as famílias Sales e Andrade de Uruburetama
F10- João Pereira de Queiroz foi para o Riacho do Sangue, onde se casou com Maria Alves Pinheiro e foi estabelecer-se no Riacho Cangati, afluente do rio Choro, onde prosperou e deixou ilustre prole
F11- Francisco Pereira de Queiroz, casou-se na Bahia, com uma viúva jovem ainda, e foram morar em Santo Amaro, constituindo assim o ramo baiano da família Queiroz.
F12- Manoel Pereira de Queiroz, nomeado Alferes do exército Português, casou-se com uma filha do Comandante da Fortaleza Goa, José Mattoso Câmara, e foi avô do Senador do Império Eusébio de Queiroz Coutinho Mattoso Câmara, nascido em São Paulo de Loanda, na África, em 27/09/1812, e foi ainda o progenitor da ilustre família da antiga província do Rio de Janeiro estabelecida em Quissaman.


Os três primeiros filhos de Ignácio Pereira de Queiroz Lima e dona Francisca Cavalcante Vasconcelos de Queiroz, casaram-se respectivamente com três filhos do capitão Joaquim Correia e dona Anastácia Maciel de Mello, proprietários da fazenda Papagaio na várzea do Apodi, Rio Grande do Norte:

Antônio Pereira de Queiroz (neto), o primeiro filho de Ignácio, recebeu o mesmo nome do avô materno, herdeiro do Engenho Jacaré, casou-se com Helena de Oliveira Maciel. E depois mais outros dois irmãos de Antônio, José Pereira Cavalcante de Queiroz e Anna Pereira Cavalcante de Queiroz, casaram-se com Francisca da Rocha Maciel e Simão Corrêa de Araújo Maciel, irmãos de Helena.
Depois desses três casamentos, Antônio, José e Simão foram nomeados respectivamente, Capitão, Tenente e Alferes de Cavalaria do Regimento de São Bernardo do Jaguaribe.

Outros dois filhos de Ignácio e dona Francisca, Francisco Pereira de Queiroz e Manoel Pereira de Queiroz, enquanto jovens, muito trabalho e desgosto deram a seus pais. Francisco, o nono filho do casal, talvez por seu próprio caráter ou de tanto ouvir sua mãe falar das injustiças que padeceu com seus irmãos, tornou-se um exímio atirador, e muito hábil no manejo da espada, fez-se cavaleiro andante e juntamente com seu irmão Manoel ficaram célebres por suas estripulias. Meteram-se a justiceiros, atacaram escoltas para tomar os presos detidos, libertaram criminosos, e assim arranjavam briga por onde passavam, ferindo e matando algumas pessoas, tornando-se verdadeiros egressos da lei. Procurados pela justiça do Estado fugiram para Bahia onde foram presos, remetidos para Lisboa e trancafiados na prisão de Limoeiro.
Essa triste notícia chegou à Fazenda Barro Vermelho e causou tamanho constrangimento e desgosto a seus pais, que não resistindo faleceu Ignácio Pereira de Queiroz, seguido por dona Helena apenas treze dias depois. Os dois foram sepultados na capela de São João Batista, a mesma em que há muitos anos atrás haviam se casado, e onde se achavam as sepulturas de seus pais Antônio Duarte e Izabel, e ainda as sepulturas de Victoriano e Bertholeza, que os precederam na morte.
Os dois filhos que permaneciam encarcerados na prisão de Limoeiro sem nenhuma esperança de salvamento, foram convocados pelo rei de Portugal para as conquistas de terras na África, com a promessa de que, caso se portassem com bravura seriam considerados livres.
Esses dois destemidos brasileiros tanto se destacaram nas lutas contra os negros africanos que em pouco tempo foram nomeados Alferes do Exército Português. A coragem e a bravura de Manoel Pereira de Queiroz, conquistaram o amor da filha do comandante da Fortaleza de Goa, José Mattoso Câmara. Manoel se casou e lá permaneceu. Foi ele o avô de Senador do Império Eusébio de Queiroz Coutinho Mattoso Câmara, nascido em São Paulo de Loanda, na África, em 27/09/1812, e foi o progenitor de ilustre família da antiga província do Rio de Janeiro estabelecida em Quissamam. Seu irmão Francisco Pereira de Queiroz pediu a exclusão do exército e voltou para a Bahia, onde se casou com uma viúva jovem e rica indo morar em Santo Amaro, formando então o ramo baiano da família Queiroz.
Depois da morte de Ignácio Pereira de Queiroz e de dona Francisca, da fazenda Barro Vermelho, seus filhos com suas famílias constituídas dividiram-se por diversos lugares da capitania do Ceará.

O filho mais velho, Antônio Pereira de Queiroz casado com Helena de Oliveira Maciel, requereu duas “datas” de terras na Serra Azul, em Quixadá, com três léguas quadradas cada uma e formou o sítio Natividade”, para onde se mudou com a mulher e dois filhos pequenos. Nesse lugar onde até então era povoado por índios bravios, iniciou extensas plantações de milho, mandioca e algodão. Construiu muitas casas de moradia, casas de farinha, paióis para armazenar o milho e fábrica de descaroçar algodão.
Antônio Pereira e dona Helena residiram durante doze anos no sítio “Natividade”, onde nasceram mais seis filhos do casal, completando oito ao todo:

1 – Antônio Pereira de Queiroz Lima, c.c. Leandra Lopes Barreira
2 – Anna Pereira de Jesus, c.c. Sebastião da Cunha Saraiva
3 – Joana Batista de Queiroz c.c. Ignácio Lopes Barreira (filho de Antônia da Silva e Sá Barbosa, bisneta da índia Piaba, e do português Balthazar Lopes Barreira)
4 – Maria de Jesus Queiroz (freira da Ordem Terceira de São Francisco em Recife)
5 – ...
6 – Miguel José de Queiroz Lima, c.c. Vicência Clara da Silva
7 – José de Queiroz Lima
8 – Izabel de Queiroz Lima c.c. José Lopes Barreira



*  *  *  *  *  *  *



 "Quod potui feci;
faciant meliora potents".

"Quanto a mim escrevo até este ponto;
o que depois se passou,
talvez outro queira tratá-lo".
Xenofonte, "Helênicas"




Nota da autora:

Esse trabalho é o resultado de uma intensa pesquisa pessoal. Há anos venho me dedicando a escrever longos textos sobre origens, histórias, ascendências e descendências dessas famílias das quais eu descendo.
Consegui elaborar esses parcos escritos, cuja única intenção é resgatar e registrar a genealogia de nossos antepassados, desde suas origens até os dias atuais. Aos poucos vou compondo nossa parte nessa história, uma espécie de “colcha de retalhos”, juntando cada pedacinho a outros, através de uma constante busca, de uma investigação laboriosa entre relação de dados e acontecimentos, realizada com esmero e profunda dedicação.
São dias, às vezes noites inteiras, passados diante de um computador, de pilhas de livros, cadernos de anotações, antigos documentos e uma infinidade de outras fontes de informação, lendo, pesquisando, digitando, corrigindo, deletando, refazendo e acrescentando nomes, datas e textos. Tentando decifrar todas as complexas relações de parentesco entre nossos ancestrais, reunindo e conferindo nomes, datas e lugares de nascimentos, casamentos, fotos e falecimentos.
Dizem que as publicações sobre genealogia de família são sempre “ensaios” e nunca ficam prontos, porque estão continuamente carecendo de ajustes, emendas e correções.
De minha parte, admito desde já existirem algumas omissões e eventuais erros nesses assentamentos, inerentes ao meu intento, sujeitos, portanto a retificações, emendas e acréscimos, que serão sempre muito bem recebidos.

Dedico,
à memória de meu pai, um contador de histórias de quem herdei o gosto pela genealogia dos nossos ancestrais, através das narrativas que ele sempre me fazia, muitas vezes recontadas com riquezas de detalhes, legando a mim todo o seu precioso acervo de livros, fotos, registros e outros documentos com informações relacionadas a família;
aos meus filhos e netos, para que um dia eles também possam contar essas histórias aos filhos e netos deles...
ao meu irmão Arcelino Neto que me proporcionou, entre outras coisas, resgatar e reescrever todas essas histórias...

Claudia Maria Mattos Brito de Goes


*  *  *  *  *  *  *

FONTE de PESQUISAS:

– LIMA, Esperidião de Queiroz – Antiga Família do Sertão – 1946
– LEAL, Vinicius Barros – História de Baturité – 1981
– LEAL, Vinicius Barros – A Colonização Portuguesa no Ceará – 1983
– SOUSA, José Bonifácio – Quixadá & Serra do Estêvão – 1997
– GIRÃO, Raimundo – Famílias de Fortaleza (Apontamentos Genealógicos) 1975
– GIRÃO, Raimundo – Montes, Machados e Girões - 1967
– GIRÃO, Raimundo – Pequena História do Ceará - Instituto do Ceará – 1962
– ABREU, Capistrano de – Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil
– ABREU, Capistrano de - Capítulos da História Colonial (1500-1800) – 1934 (pág. 128)
– RIBEIRO, Valdir Uchoa – Genealogia da Família Brreira
– BARREIRA, Inácio Ellery – Origem da Família Barreira - Livreto - 1986
– BRÍGIDO, João – Ceará (Homens e Factos) – 1919
– TORCÁPIO, Raimundo – Rev. Do Instituto do Ceará – Algumas Linhagens de Famílias do Sul do Ceará (Revista Trimestral)
– Anotações, registros pessoais, publicações na Internet, fotos dos arquivos de família.

*  *  *  *  *  *  *





sexta-feira, 29 de julho de 2011

O SÍTIO BREJO

Descendentes das Famílias
QUEIROZ e BARREIRA
na Serra de Baturité.

           SÍTIO BREJO GUARAMIRANGA CEARÁ


“O justo anda na sua integridade;
bem-aventurados serão os seus filhos depois dele.”
Provérbios 20.7

           

O primeiro galho Mattos Brito transplantado para a Serra
encontrou no BREJO, no Guaramiranga e em outros sítios depois adquiridos,
base segura e seiva bastante para desenvolver-se patriarcalmente,
formando também frondosa estirpe...”
(Esperidião de Queiroz Lima – Antiga Família do Sertão)

A sua história documental teve início com alguns datados de 1819, notícias sobre batizados aí realizados...
As extremas tradicionais do Sítio Brejo iam do Labirinto ao Macapá, que então se estendia até o Pé de Ladeira.
Atualmente, a parte mais significativa do ‘Brejo’, a que mais expressa a centenária existência deste sítio, está nas mãos dos herdeiros de Arcelino de Mattos Brito, e a eles cabe completar estas notas de relance, que visam apenas demonstrar a antiguidade e memorável história de um sítio tradicional da Serra de Baturité.”
(Vinícius Barros Leal – História Territorial do Maciço de Baturité)


Nas terras férteis do Sítio Brejo, nasceu e prosperou a grande FAMÍLIA MATTOS BRITO.
Consta em antigos documentos, batizados e casamentos aí realizados que, a 25 de fevereiro de 1812, já residia nessas terras do Sítio Brejo Balthazar Luís da Costa, neto do comerciante português Balthazar Lopes Barreira, natural da freguesia de Chaves, em Bragança, Portugal. Considerado o patriarca da família, Balthazar Lopes Barreira casou (em 16/04/1733) com Antônia da Silva e Sá Barbosa (neta da índia Piaba de Cunhaú) e se estabeleceu na ribeira do Pirangi, fundando aí a grande e famosa Fazenda do Quixinxé.
(Ver detalhes dessa história no livro Antiga Família do Sertão – Esperidião de Queiroz Lima).

Tempos depois, tomou posse de uma parte do sítio um primo seu, José Lopes Barreira Junior (avô materno do Cel. Chichio), casado com sua prima carnal Helena Izabel de Jesus Queiroz, da Fazenda Santa Maria, sediada na ribeira do rio Sitiá em Quixadá. Dessa união nasceram dez filhos, sendo nove homens e uma única mulher, Izabel Maria de Jesus Queiroz, filha caçula, nascida em 17 de julho de 1824, que casou-se com o português Antônio de Mattos Brito, natural da Província de Guimarães, em Portugal (hoje, cidade de Guimarães, mais conhecida como “cidade berço” por ter sido a primeira capital do Condado Potucalense).
O casal teve dois filhos: José, nascido em 1862, e Francisco (Queiroz) de Mattos Brito (meu bisavô materno) nascido em 19 de fevereiro de 1865.
Francisco (Chichio) tinha apenas dez anos de idade quando morreu seu pai, em 1875, deixando sua mãe viúva com os dois filhos ainda criança, e essa única propriedade – O Sítio BREJO.

Por esse tempo, assumiu a administração do sítio e a tutela dos sobrinhos, Marcolino João de Queiroz, um dos irmãos de Izabel.
José, o filho mais velho, faleceu cinco anos depois de seu pai, aos 18 anos de idade.
Enquanto isso, Marcolino havia se descuidado do sítio e contraído muitas dívidas em nome da propriedade. Francisco (Chichio) era o filho mais novo e havia completado os seus 22 anos vendo toda aquela situação se agravar, as dívidas crescendo e o que restou das terras deixadas por seu pai cada vez mais abandonado. Resolveu então que era hora de tomar posse de sua herança e, numa atitude audaciosa, juntamente com sua mãe Izabel, a “Vó Bela”, seguiu pra Fortaleza, procurou o Barão de Ibiapaba e hipotecou o Sítio Brejo por vinte contos de réis, em 22/03/1887, a serem pagos em dez prestações (de dois contos de réis ao ano) a partir de 1º de dezembro desse mesmo ano.


Traslado da Escritura de Hipoteca
Página 01
Página 09 - Final
Com o dinheiro em mãos, o vovô Chichio saldou todas as dívidas contraídas pelo tio e, sozinho, se empenhou trabalhando com afinco e determinação, enfrentando extremas dificuldades para honrar criteriosamente o compromisso assumido com a hipoteca do sítio.
No dia em 1º/12/1894, prazo em que se vencia a oitava parcela dessa hipoteca, Francisco de Mattos Brito já era homem feito. Tinha 29 anos de idade quando se casou com sua parenta Adelaide Queiroz, na fazenda Califórnia, em Quixadá, e vieram morar na antiga casa do Sítio Brejo.


Francisco de Mattos Brito (Chichio)
(19/02/1867-16/01/1948)

Coronel Chichio


NON FUIMOS, NON SUMUS, ET QUI NUNQUAM OBLITI ERIMUS.” 

 (Não fomos, não somos, e nunca seremos esquecidos.)  

Adelaide Queiroz de Mattos Brito
(05/05/1974-22/05/1952)

Adelaide com o irmão Daniel


No SÍTIO BREJO eles permaneceram até o final do ano seguinte, quando morreu o seu sogro, o Dr. Arcelino de Queiroz Lima, dono da fazenda Califórnia, em Quixadá, deixando viúva a Vozinha Rachel (aos 43 anos de idade), filha do Cel. João Batista Alves de Lima e de Joanna Batista de Queiroz, donos do Sítio Guaramiranga e avós de Adelaide (minha bisavó materna).
O Cel. Batista e dona Joaninha, sendo primos legítimos, eram ambos sobrinhos de Joanna Batista de Queiroz Barreira, que ficou conhecida como ‘dona Joaninha do Tapuiará’, viúva de Luciano, assassinado na Fazenda Cachoeira, em Uruquê - Quixeramobim, no dia de seu casamento (ver capítulo Bodas de Sangue).
Depois da morte do Dr. Arcelino, os dois velhinhos cansados de lutar e desanimados com a crise da cafeicultura que aniquilava a Serra, concordaram em abandonar a propriedade serrana e se mudaram para a Fazenda Califórnia, onde vivia sua única filha, Rachel de Queiroz Lima e os netos.

Sítio Guaramiranga estava hipotecado pelo Cel. João Batista desde 1901, por cinquenta contos de réis. E naquele momento a propriedade se encontrava afogada em dívidas que só seriam liquidadas alguns anos depois, quando o vovô Chichio assumindo todos os débitos, em 6/11/1904 adquiriu o sítio e reergueu não só o Sítio Guaramiranga, mas a cafeicultura de toda a Serra de Baturité, com a introdução e o plantio da ingazeira sombreando os antigos e velhos cafezais.
Saindo do Brejo, o casal Chichio e Adelaide instalou-se na Vila de Conceição (Guaramiranga), inicialmente num sobradão antigo, pertencente à dona Libânia de Holanda, no início da rua que hoje tem o seu nome:
Rua Cel. Francisco de Mattos Brito.

Primeiro Sobrado - Coronel Chichio sentado ao centro, com os filhos


Família MATTOS BRITO no dia do casamento
de CLÉA com João Carvalho,
primeira filha do casal Chichio e Adelaide.
Em pé, da esquerda para a direita:

Nestor, Alice, Elsa (Irmã Germana, depois Irmã Maria Luiza), Antônio, Aúrea, Cléa, João Carvalho (noivo de Cléa), Jorge, Maria Adelaide (Irmã Brito) e Arcelino.
Sentados: Lúcia, Zélia, Adelaide, Coronel Chichio, Nilda e Cira.

O Cel. Chichio adquiriu depois outro sobrado nessa mesma rua, onde funcionou o antigo colégio do Padre Frota. Nessa casa que todos chamavam “a casa da VOVÓ”, eles permaneceram até a morte.
Coronel Chichio com os filhos
Da esquerda para direita:
Nestor, Brito, Chichio, Napoleão (genro), Jorge e Arcelino.





 “Quando tio Chichio se casou com tia Adelaide, foram morar no Brejo, um sítio que ele herdara de tia Bela... Quando nosso avô Arcelino morreu... o avô João Batista (nosso bisavô – pai do Dr. Arcelino) que já era um homem velho, foi morar com a vozinha Rachel, na Califórnia... ajudar a criar os netos – os dez netos. Como não podia mais cuidar do sítio da serra, fez um negócio de pai para filho com o tio Chichio, que se tornou então o dono do Guaramiranga... No limite do sítio, logo no começo da rua da Conceição, em Guaramiranga, ficava um sobradão que pertencia a d. Libânia Holanda. Devia ser uma edificação colonial, pois já era muito antiga por esse tempo. Então, tio Chichio, que detestava fazer casa – dizia que casa só alugada ou herdada –, alugou o sobradão pagando cem mil réis por mês... eu me lembro bem dele: um casarão com doze salas espalhadas... era o nosso ponto de referencia. Era lá que nos encontrávamos todos, era lá o ensaio dos ‘dramas’, as festas...
Foi quando tomei consciência da família, pois até então tinha morado no Pará. Consciência dos primos – Brito morava ainda aqui no Rio, estava estudando. E conheci o Celino, que se tornou meu galã, meu paradigma, a pessoa por quem fui tomada da maior admiração e fascinação... Com quinze anos abandonou os estudos (tio Chichiu adoecera e viera se tratar no Rio) e assumiu a direção das fazendas, dos sítios, de tudo.”

(Rachel de Queiroz – Tantos Anos )


O vovô Chichio e a vovó Adelaide tiveram 16 filhos (3 deles faleceram ainda criança), criaram-se 13, sendo 9 mulheres e 4 homens:
Cléa, Arcelino (meu avô), Elsa (que recebeu o nome de Irmã Germana e depois, Irmã Maria Luiza), Antônio (Brito), Maria Adelaide (Irmã Brito), Jorge, Alice, Áurea, Nestor, Nilda, Lúcia, Cira e Zélia.

Coronel Chichio foi um homem que, embora modesto e de poucas letras, viveu intensamente, dando tudo de si à terra que o viu nascer.

Para ele foi o trabalho uma religião que professou desde a infância até o seu último dia de vida...

E foi trabalhando a terra com seu esforço e luta que conseguiu reunir consideráveis bens de fortuna, conquistando uma posição de destaque no meio em que viveu, e, pela retidão de sua conduta e caráter, formou um invejável patrimônio moral, do qual só temos que nos orgulhar.
Era um líder na sua família, um empreendedor na agricultura serrana, com a introdução da ingazeira nas plantações de café, nas experiências feitas com sisal, “bicho da seda” e tantas outras... Orientava com idoneidade e desenvoltura a todos que lhe procuravam em busca de seus conselhos para os assuntos de negócio e de família, coisa que ele fazia com segurança e desenvoltura. Seus conhecimentos, no entanto, não se limitavam ao cultivo e beneficiamento do café na serra. No sertão de Quixadá, além de próspero produtor de algodão, o Cel. Chichio se destacava entre os fazendeiros como experiente criador de gado.
Foi um pioneiro quando implantou a primeira hidrelétrica da Serra de Baturité, a terceira do Ceará. Em 1918 já estava instalado no Sítio Guaramiranga, um motor a vapor (locomóvel) que, durante o dia acionava a máquina de pilar café, e à noite, um gerador que fornecia energia à então Vila de Guaramiranga.

“Era um chefe, um líder autêntico. Sua palavra, em qualquer sentido, era a fronteira entre o sim e o não, o impasse e a decisão, o empenho, a lei, a ordem e a sentença... Juiz sem toga, resumia na força de sua personalidade todo um processo de equilíbrio que sustentava Guaramiranga dentro de uma ambiência de paz e concórdia.
Era governo sem os títulos oficiais... Dono de um coração sem fronteiras, Francisco de Mattos Brito possuía um cetro de liderança que se impunha sem ostentação e sem imposições. Respeitado e acatado, nunca usou de violência para impor-se ou afirmar-se. Bondoso, sem ser piegas, tinha consciência de sua dimensão como chefe e líder, na sua passagem jamais se despiu das marcas que lhe conferiam a qualidade de comandante...” (Regina Stela Studart Quintas)

Com muita luta e trabalho o Cel. Chichio adquiriu assim várias propriedades na serra e no sertão: Sítio Guaramiranga, São Pedro, Iracema, Riacho Fundo (depois Guarani) e Boágua, na Serra de Baturité (O Sítio Labirinto, vizinho ao Brejo, foi adquirido por seu filho Arcelino).
E as fazendas: Junco, Campestre, Lagoa da Rede, Bonito (na Serra Azul, hoje Ibaretama), e São Luiz, em Quixadá. Muitas dessas propriedades ainda permanecem com os seus descendentes.

Foi prefeito nomeado de Guaramiranga (de 25/10/1921 até meados de 1928) e dono do primeiro automóvel “Dodge” a chegar ao Ceará, que era dirigido pelo meu avô Arcelino.
A VILA de CONCEIÇÂO absorveu o nome do Sítio, em torno do qual ela sobrevivia.
O vovô Chichio faleceu ainda muito lúcido, aos 84 anos de idade, em 16/01/1948 (doze anos após esse dia, em 16/01/1960, nascia, na casa do Sítio Brejo, sua bisneta Germana de Mattos Brito Góes, filha de Maria Emília e Zelito).

Minha bisavó ADELAIDE e eu.
 Vovó Adelaide, ficou muito abatida com a morte súbita de um genro e de mais dois netos, sofrendo um grande abalo com o repentino falecimento de seu filho Brito, seguido da morte de Chichio, seu dileto e querido companheiro... Faleceu aos 79 anos, em 22/05/1952 (no dia 22/05/1987, nascia em Fortaleza George Henry Góes Ferreira Costa, meu sobrinho, um dos netos de Maria Emília e Zelito).


Arcelino (Queiroz) de Mattos Brito


Arcelino na casa do Sitio Guaramiranga
Noemi Castello Branco Lopes



Arcelino de Mattos Brito – meu avô, nascido em 22 de dezembro de 1896, no Sítio Brejo, segundo filho do casal Chichio e Adelaide, e o mais velho dos homens, seguiu à risca o exemplo de seu pai, e aos quinze anos abandonou os estudos para ajudá-lo na administração das propriedades. Era o seu braço direito. Casou aos 31 anos de idade (em 27/01/1928), com Noemi Castello Branco Lopes, filha de José Adriano Lopes e Maria Emília Castelo Branco Lopes, donos do Sítio “Ladeira Cavada”, hoje denominado de ‘Sítio Santo Antônio’, em Pacoti.

Depois do casamento eles foram morar na nova casa do Sítio Brejo, construída por ele, no mesmo local da antiga casa onde nasceu seu pai, Cel. Chichio, e ele próprio, Arcelino.
Mantendo a tradição da família, deu continuidade à produção da Aguardente BREJO, modernizando toda a estrutura do alambique e o seu processo de fabricação e destilação.
(Essa postagem ainda está sendo concluída...)





ARQUIVO FOTOGRÁFICO:


ARCELINO e NOEMI na Fazenda JUNCO - Quixadá - Ceará
Lúcia e Napoleão - 23/01/1947
Jorge e Anita
Maria Clara (Iká) e os irmãos

Coronel Chichio no sitio BREJO
Da esquerda para direita:
Arcelino, Noemi, Chichio e Napoleão.
Criança de trança: Elsa, filha de Arcelino e Noemi.


Coronel Chichio com os netos
  
Coronel Chichio com filhos e netos